Mensagem a Nilo Fichtner

A Nilo, com carinho...
dedicamos um pouco dos mistérios da criação.

 

A CRIAÇÃO

A mulher e o homem sonhavam que Deus os estava sonhando.
Deus os sonhava enquanto cantava e agitava suas maracás, envolvido em fumaça e tabaco, e se sentia feliz e também estremecido pela dúvida e o mistério.
Os índios makiritare sabem que se Deus sonha com comida, frutifica e dá de comer. Se Deus sonha com a vida, nasce e dá de nascer.
A mulher e o homem sonhavam que no sonho de Deus aparecia um grande ovo brilhante. Dentro do ovo, eles cantavam e dançavam e faziam um grande alvoroço, porque estavam locos de vontade de nascer. Sonhavam que no sonho de Deus a alegria era mais forte do que a dúvida e o mistério; e Deus, sonhando, os criava e cantando dizia:
- Quebro este ovo e nasce a mulher e nasce o homem. E juntos viverão e morrerão. Mas nascerão novamente. Nascerão e tornarão a morrer e outra vez nascerão. E nunca deixarão de nascer, porque a morte é mentira.

Eduardo Galeano, Nascimentos, memórias do fogo (I)


In memória [1933-2010]

A história profissional de Nilo Fichtner pode ser resumida a um currículo exemplar. Por gerações, ele ainda será lembrado como Psiquiatra Infantil e Terapeuta Familiar . Porém, quando olhamos um currículo e, nas entrelinhas, pressentimos a biografia que revela o ser humano – suas ações e paixões – a leitura de um simples texto chamado “currículo” acaba sendo submetida à arte de compreender as manifestações escritas da vida. O que torna Nilo Fichtner uma pessoa especial? O que ainda hoje nos instiga em sua trajetória profissional?

Acreditamos que muitas das respostas convergem para a experiência humana de um profissional que foi simplesmente um pioneiro em diversos campos da medicina. Vide, por exemplo, o fato de ter sido ele o primeiro Psiquiatra Infantil do Rio Grande do Sul. Desse fato, explica-se, em grande parte, o pioneirismo em relação à abordagem dos transtornos mentais e dos problemas de aprendizagem. De alguma forma, essa trajetória acabou sendo coroada, anos mais tarde, com a publicação do livro Transtornos mentais da infância e adolescência, pelas Artes Médicas, em 1997, do qual foi organizador ² .

Se seguirmos a cronologia dos relatos biográficos, vamos encontrar um Nilo que, na década de 60, foi também, um dos fundadores da Comunidade Terapêutica Leo Kanner, primeira comunidade terapêutica da América Latina. Essa empresa ocorreu junto a um grupo de colegas da mais alta expressão profissional, mas que, por critérios afetivos e familiares, cabe destacar a atuação de Salvador Célia, primo-irmão e companheiro de todas as horas.

O ponto alto de sua caminhada como profissional liberal está justamente simbolizado na criação, no início da década de 70, da Clínica Médico Pedagógica de Porto Alegre, do qual foi diretor por mais de duas décadas. Por ali, circularam profissionais de diferentes formações – psicólogos, fonoaudiólogos, psicomotricistas, pedagogos, professores, psiquiatras, terapeutas de família, entre outros – o que fazia do espaço clínico um espaço de confronto de ideias, de investigação, de formação e de troca interdisciplinar.

Na Clínica Médico Pedagógica, junto com as psicólogas Elma Kristensein e Maria Regina Giffoni, Nilo criou o primeiro curso de formação em Psicopedagogia Terapêutica – curso, na época, considerado de ponta, pois trazia ideais inovadoras de Buenos Aires, cidade em que fizera Especialização na Universidade Del Museo Social Argentino nos anos de 1968 e 1969. Recentemente, em 2008, por ocasião da comemoração do aniversário da Sociedade Brasileira de Psicopedagogia, Nilo foi homenageado justamente por seu protagonismo na área.

Desde a época de sua formação na Argentina, Nilo inicia uma intensa troca e amizade com los hermanos, sendo uma de suas marcas, em uma época em que não havia internet e outras facilidades tecnológicas próprias ao mundo globalizado, a iniciativa de trazer profissionais do exterior para ministrar palestras, formações e cursos. Recentemente, antes de se operar, Nilo esteve com Eduardo Kalina e manifestou, junto aos familiares, uma alegria imensa de reencontrar o velho amigo e companheiro, depois de um ano de intervenções cirúrgicas e complicações hospitalares.

O movimento dinâmico e criativo que graçava no domínio da Psiquiatria, na década de 70, também fez de Nilo um dos fundadores da ABENEPI/RS - Associação Brasileira de Neurologia e Psiquiatria Infantil em 1974, da qual foi por duas vezes presidente e por outras ocasiões ocupou diversos cargos na Instituição(3) . De sua trajetória na ABENEPI, podemos observar um Nilo que atuou intensamente no domínio da política, na área clínica e na vida acadêmica(4) .

Por fim, a busca do pensamento sistêmico e interdisciplinar faz do legado de Nilo (e de seus companheiros) não apenas uma ode a um pioneiro que mobiliza, nas novas gerações, a deferência a um passado memorável. Acreditamos que essa mensagem de otimismo não se esgota na lembrança, pois o passado é já passado e não volta jamais. Pensamos, isso sim!, que o ato de irmos ao passado está diretamente relacionado ao intuito de reencontrarmos, nele, idéias, modelos, ações e pessoas fundadoras que nos recolocam em direção ao futuro. Nesse sentido, gostaríamos de homenagear Nilo, que nos faz chorar sua ausência , mas nos reconforta com a inspiração de buscar o inédito.

Marília Papaléo Fichtner;
Marise Fichtner Zimmerman;
esposa, filhos, netos, amigos e familiares.


Porto Alegre, 25 de setembro de 2010.

 

 


1 -Graduação: Medicina na UFRGS (1952/57). Especialização: Psicologia Clínica, Instituto de Filosofia da PUCRS (1959-1963); Retardo Mental, Museu Social Argentino, Buenos Aires (1968-69); Terapia Familiar, Associação Encarnación Blaya, 1982; Psiquiatria, CREMERS, 1984; Psiquiatria Infantil, ABENEPI, 1992; Psiquiatria, AMB/ABP/CNM.

2 - Outras publicações: A criança e o contexto sócio-familiar e escolar; publicado no livro Famílias e terapeutas, organizado por Luis Carlos Prado, Artes Médicas, 1996. Fobias; publicado em Pediatria:consulta rápida, organizado por J. L. Pitrez e P. M. Pitrez, organizadores, 1998. Prefácio em publicação de Eduardo Kalina, Psicoterapia de adolescentes, editado pelas Artes Médicas, 1999. Apresentação de livro de Eduardo Kalina, Drogadição hoje, publicado pelas Artes Médicas, 1999.

3 - Eis a descrição de sua atuação na ABENEPI: presidente (1973-75); conselheiro fiscal (1973/75); vice-presidente (1976-77); presidente da II Sul-Brasileira de Psiquiatria (1984); presidente (1984-85); Coordenador da Comissão Científica do Congresso Internacional da Saúde Mental (1997) Enfim, a sua ação na ABENEPI, retrata o perfil do político, do clínico e do estudioso.

4 - Cabe destacar que Nilo foi Professor titular de Psicopedagogia, no Instituto de Psicologia da PUCRS (1963-1968); foi Professor de Psicologia do Desenvolvimento, na Cadeira de Pediatria e Puericultura, na faculdade de Medicina da UFRGS (1965/1968); foi Professor e coordenador do primeiro curso de Especialização em Psicopedagogia, da Faculdade de Educação da UFRGS (1974/1975); foi professor de Técnicas Diagnósticas do curso de Especialização em Psiquiatria Infantil, no departamento de Psiquiatria e Medicina Legal, na Faculdade de medicina da UFRGS (1977); foi Professor da cadeira de Psicologia do Excepcional, no departamento de Psicologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UFRGS (1976-1977); por fim, foi Professora da Faculdade de Medicina da ULBRA (1998-2006).

 


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