Salvador Célia: Luto na Psiquiatria Infantil

Salvador Célia faleceu - em 09.07.09, com 68 anos.

Ainda na Faculdade, nos idos da nossa ATM-65, sua capacidade de trabalho, envolvimento e iniciativa se destacavam - e só cresceram e amadureceram, ao longo de uma vida admirável.

Desde muito cedo, Salvador se interessou pela saúde mental das crianças, dividindo com colegas - e sempre multiplicando cuidados - o que se tornaria sua peculiar matemática profissional.

Logo depois de formado, já ao lado de Isabel, sua companheira de sempre, iniciou uma jornada de vida que se ampliou em horizontes que se descortinaram internacionalmente com uma amplitude notável.

No retorno de sua formação nos EEUU, participa da fundação do Instituto Leo Kanner, que foi um marco de trabalho em equipe em P. Alegre, no atendimento psiquiátrico de crianças e adolescentes.

Modificado, em sua estrutura, o Instituto Leo Kanner mantém-se até hoje como polo formador de pediatras e terapeutas com atenção especial para a importância dos primeiros anos de vida, dos bebês e seus cuidadores.

Salvador tornou-se um pioneiro, no nosso meio, em duas áreas intimamente interligadas: as instituições nacionais e internacionais ligadas à infância, e as atividades profissionais de política e saúde pública, com ênfase no ensino e formação do trabalho ligado à infância.

Sua presença nos inúmeros congressos, jornadas, cursos, encontros, que liderou, foi sempre garantia de sucesso - e motivo de gratidão para todos os que puderam aproveitar de suas iniciativas.

Sua visão da psiquiatria infantil e da saúde mental o levou a posições cada vez mais firmes e socialmente revolucionárias: era preciso cuidar dos bebês, do filhote humano, e de suas mães, desde muito cedo - única forma de assegurar que se desenvolvesse a resiliência, conceito de que se tornou poderoso porta-voz; a violência só poderia ser evitada e prevenida se a base de relações precoces garantisse apego, confiança básica e o desenvolvimento de empatia; a empatia tinha que se desenvolver nas mães, nas crianças - e nos estudantes de medicina.

A faculdade de Medicina da Ulbra encontrou em Salvador um professor experiente, entusiasta e criativo, cujo programa de seguimento familiar na comunidade, para os estudantes, a partir do segundo semestre, já frutificou em turmas de médicos fecundados por sua visão social, preventiva e humanista.

Suas características agregadoras o levaram a manter e desenvolver equipes de inúmeros colegas e amigos que sempre compartilharam de suas iniciativas, merecendo o reconhecimento internacional, através de prêmios, convites e duplicação de suas propostas.

Neste momento, em que sua figura humana e sua existência passam a se construir como memória, o balanço das pessoas para cuja formação contribuiu, em diversos níveis, da graduação à especialização, em quantidade e qualidade, merece se tornar um espaço permanente de inspiração e desenvolvimento: assim será homenageada sua vida de tantas realizações, e seu entusiasmo há de reflorescer sempre como as hortênsias de sua Canela querida, mantendo o eco das “Marchas pelo Bebê”...
 

Autora: Norma Escosteguy


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